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Enrabelem: “Valeu a pena sacanear tanta gente”

dumont kamikaze_abertura enrabelem

Em entrevista exclusiva, os trolls por trás do blog que todos amam odiar abrem seu coraçãozinho negro

Leonardo Fernandes

Quase todo mundo conhece o tipo: aquele fã de metal que odeia tudo que não venha acompanhado de um riff de guitarra distorcido e um vocal gutural monstruoso. Por isso quando os posts cheios de provocação do blog Enrabelem (escrito no pior internetês, sem maiúscula ou acento) começaram a serem notados no início do ano, muitos acreditaram na brincadeira.

Como uma versão repaginada para a internet de Beavis e Butthead, os administradores do site, que atendem pelo pseudônimo Ophir da Pauta e Lu Stroza, castigaram a cena rock da cidade em suas ‘analizes’ musicais.

Os indies do Molho Negro foram rebatizados de Gala Escorre, em alusão a seu logo um pouco sugestivo, em que o nome do grupo respinga em um fundo negro. Já Roosevelt Bala, do grupo pioneiro do heavy metal paraense Stress, é comparado ao bregueiro Wanderley Andrade, devido a longa cabeleira rebelde que os dois cantores ostentam. Isso só para ficar nas descrições mais simpáticas, que não envolvem nem insinuações sobre a sexualidade dos músicos ou palavrões em caixa alta.

Pisando em tantos calos, não demorou para o nível descer mais ainda. Fãs e integrantes das bandas citadas começaram a inundar a caixa de comentários do blog com reclamações, ameaças de processo e eventuais “vou te matar”. Assustados com a repercussão negativa, a dupla de ‘bullies’ do Enrabelem foi obrigada a revelar a farsa em menos de duas semanas no ar.

Na nota de esclarecimento publicada no dia 30 de janeiro, ao invés do sarcasmo e os erros de ortografia habituais, um pedido de trégua em português claro. No texto, os dois amigos que iniciaram uma brincadeira que saiu do controle se justificam. “A ideia é tirar um sarro com a postura über sexual do headbanger que não conseguiu evoluir. É um blog de humor que tenta divulgar as bandas do som peso e tirar um sarro dessa postura machista e obsoleta”, afirmam em um trecho.

A partir daí, especular sobre a verdadeira identidade do Enrabelem se tornou o passatempo preferido nas festas e shows da cidade. Bandas dedicavam musicas ao blog, até pediam via Twitter para serem sacaneadas. Contudo, em maio os posts começaram a ficar cada vez mais raros, cessando por completo em junho. Com o silêncio veio a especulação, sugerindo problemas com a justiça e censura.

Os administradores da página tentam evitar comentar sobre o espinhoso assunto. Eles, inclusive, ensaiaram uma volta em setembro com uma série de resenhas sobre o CCAA Fest, sem tocar nos motivos do desaparecimento ou da retomada do blog. Mas alguns meses de silêncio em tempos de redes sociais equivalem a séculos – e a página acabou perdendo relevância.

Engana-se, no entanto, quem pensa que Enrabelem não passa de piada velha. Ele foi o responsável por meter o pé na porta escancarando-a para uma horda de ‘trolls’ paraense que assolam as redes sociais. Hoje, são perfis como “M0nt4g3ns b3l3m” que mantêm a mesma batida formula: esculacho, erros gramaticais e Photoshop mal feito.

Prestes a completar um ano no próximo dia 30, o Enrabelem dá sua primeira entrevista. Realizada em setembro, via e-mail, o bate-papo é o mais próximo que alguém ainda vagamente curioso sobre a identidade dos criadores do site vai chegar. Mais do que brincar de detetive, a conversa é uma oportunidade de conhecer um pouco melhor esse personagem, uma nota de rodapé da cultura pop de Belém alguns podem argumentar, mas que nos rendeu boas risadas em 2012 às custas da desgraça alheia. Sem encarar personagens e sem se preocupar em soar engraçado, Lu Stroza fala de forma franca sobre a criação do blog, gosto musical, humor e censura. Com vocês, o blog que todos amam odiar.

P – Não custa tentar, então lá vai: QUAL A IDENTIDADE SECRETA DO ENRABELÉM?

R – A gente gosta de entender que o Enrabelem é todo mundo. Até porque qualquer um pode ser o Enrabelem. Mas na vida real somos dois caras normais, que gostam muito de música e que admiram artistas da bossa nova ao metal extremo, além de cultura em geral. No blog nos chamamos de Ophir Daputa e Lu Stroza, mas somos apenas o canal para o que todo mundo acha, pensa e gostaria de falar. No Twitter, sou eu, Lu Stroza, normalmente que comando. E o foco é mais diversificado: política, futebol, música, cotidiano, o que vier. Pura bobagem. Às vezes até saindo do personagem. Mas é divertido.

P – O anonimato é necessário? Em nenhum momento vocês pensaram em revelar quem eram?

R – Em uma cidade pequena como Belém, com pessoas com cabeça pequena como as que têm aqui, imagina se a gente fala quem é. Muitas vezes sacaneamos nossos próprios amigos, parceiros, sócios. Imagina se soubessem quem somos. Todo mundo ia se ofender, não ia entender como brincadeira. Primeiro que ia perder 50% da graça, depois ia matar o charme e o sucesso com a mulherada.

Enrabelem: esculacho, erros gramaticais e Photoshop mal feito

P – Quando foi criado o site? O que motivou a brincadeira?

R – O Ophir criou no final do ano passado e me chamou. A gente estava querendo fazer isso faz tempo. Primeiro foi um teste, depois explodiu em visualizações.  As pessoas queriam mais. Mandavam mensagens e e-mails indicando matéria, sugerindo posts. Era muito divertido ver os amigos comentando, a cidade toda falando sobre. Em vários shows alguém mandava um abraço pra galera do Enrabelem. A gente comemorava por dentro. Se entreolhando, sem ninguém notar. Era uma aventura.

P – Você é banger de verdade? No que se inspirou para fazer o personagem?

R – Não somos bangers! O personagem foi se formando com o tempo, mas a ideia inicial era tirar um sarro gigante com vários tipos de pessoas que circulam pelas redes sociais da vida. Gente que está sempre xingando, reclamando, e, especificamente, o grupo mais “troo” do metal, sabe? Aqueles bem ignorantes de espírito.

P – E a questão dos erros de gramática, as gírias daqui. Como foi decidido o estilo?

R – É a ideia de representar os ogros do metal, um sujeito que não toma banho, destrói tudo, odeia a tudo que não for do metal mais puro.  Essa bobagem toda.  E as gírias daqui são mais pra despistar o jeito de a gente falar (hehe). Um sotaque da galera da Cidade Nova (bairro no município de Ananindeua, região Metropolitana de Belém), que foi incrível a gente conseguir imprimir isso ao discurso do blog. Mas isso de escrever errado, malucão, foi meio sem querer. Tenho um problema nas mãos e depois de um tempo fica difícil acertar as teclas direitinho, então deixei de corrigir e ficou assim, mais divertido.

P – Como o blog começou a cair na boca do povo? Como foi a reação inicial dos leitores que ainda não tinham se tocado da sátira? E as bandas, como elas reagiram?

R – Até hoje muita gente não se tocou. E tem uns muitos meses que paramos de escrever. A primeira reação foi de revolta, eu acho. Mas não demorou pra surgirem muitas pessoas dizendo: ‘É isso mesmo! Essa banda é uma droga’. Muitas bandas mandavam e-mail e pediam pra gente falar delas, ‘analisar’ os clipes. Não importa se a gente ia avacalhar ou não. E, é claro, a gente ia. Mas percebi um certo medo que alguns artistas passaram a ter, bloqueando a gente no Twitter. Mesmo a gente dizendo que era fã do trabalho dos caras. Aconteceu algumas vezes.

P – Quantos acessos tinham no auge do site?

R – Ah, em dia de post era tipo 1.200 visitas em um dia, ou um pouco mais. Até bandas de fora procuraram, mas sabe como é, não tem feedback nenhum se não for uma banda conhecida daqui. Além disso, o que eu vou falar de um grupo emo de São Paulo? Nada.

P – Quando o sucesso começou a pesar? Vocês irritaram muita gente pra chegar onde chegaram. Receberam ameaças?

R – Rapaz, a gente quase tira o blog do ar. Porque somos dois caras normais. Todo mundo ama o Enrabelem, mas tenho certeza que todos iriam nos odiar se descobrissem. E sabe que não é nem um pouco complicado descobrir rastro digital. Qualquer um que trabalhe numa prestadora de serviço de dados que abasteça aquele computador tem como identificar de onde foi postado. Mas nossa preocupação sempre foi não ofender ninguém.

P – Mas às vezes não acha cruel o que faz, desmerecendo o trabalho dos caras?

R – Pois é, ninguém está desmerecendo. Uma coisa é dizer ‘o trabalho do fulano é irrelevante’, outra coisa é dizer ‘Véio’, muito bom… pra quem gosta de merda’. Dá pra levar a sério? Não é cruel. Tou fazendo mais por ele do que ele mesmo já fez, em relação a se divulgar. Se a banda for esperta, ganha muita visibilidade com isso.

P – Para apimentar um pouco as coisas, qual a banda ou músico mais escroto do Pará?

R – Álibi de Orfeu. É muito ruim. Bem pior do que Almirzinho Gabriel.

P – E o que acha sobre a cena metal paraense?

R – Muito boa. Zé Lucas (vocalista da banda de deathcore A Red Nightmare), Jayme Katarro (vocalista e fundador do grupo de crossover Delinquentes) e companhia. Sempre fazem um trabalho ótimo, dentro do que dá pra fazer.

P – Costuma frequentar festas ou shows na cidade?

R – Já frequentei bem mais. Ia sempre, mais de uma vez por semana, se desse. Hoje tá tudo muito fraco. Se não é num pub decadente, é em outro bem pior. A esperança são os pequenos festivais que o Sandro-k (produtor da Abunai, que organiza shows de hardcore em Belém) e agregados organizam, de resto… até o Se Rasgum (produtora responsável pelo festival Se Rasgum) tá um negócio blasé que dá enjoo.

“Não somos bangers! A ideia inicial era tirar um sarro gigante com vários tipos de pessoas que circulam pelas redes sociais da vida. Aqueles bem ignorantes de espírito”

P – O que acha do público daqui?

R – Ridículos, um bando de ridículos. Que querem tudo, com direito a conforto e ingresso de graça. Hehe. Mas que também são uns ‘maria-vai-com-as-outras’, sem lastro cultural nenhum. E lisos! Desempregados, drogados, mulambos, pedintes.

P – E tecnobrega, curte?

R – Reconheço como manifestação cultural popular. Acho foda a Gang do Eletro, um dos melhores shows que já vi. Mas fico puto com essa usurpação da identidade da periferia pela GDU. Sabe a Galera do Umarizal? (em referencia ao bairro nobre de Belém).

P – Inclusive, o ritmo da periferia do Pará é o que vem alavancando a música paraense no Brasil. Como explica isso? Acha que iniciativas como o Terruá Pará ajudam nessa divulgação?

R – Essa descoberta do tecnobrega lá fora é uma soma de diversos fatores. Principalmente, dos músicos paraenses. O mérito é do trabalho desses caras.  Mas o Terruá eu acho uma bosta. Lindo espetáculo, mas resultado ridículo pra população e pra classe artística. Pulveriza esses mais de R$ 100 milhões gastos pra você ver. Nem adianta falar sobre isso.

P – Hoje você se concentra mais no Twitter. Porque pararam de fazer as resenhas?

R – Porque o Twitter anda comigo no celular, é rápido. Serve para pensamentos mais ágeis. E as pessoas no Twitter são mais perspicazes do que no blog. Dá mais vontade de interagir. Temos poucos seguidores, só 450 (dados de setembro). É bastante divertido. Paramos com as resenhas por falta de tempo mesmo.

P – Ouvi dizer que o blog está sendo processado…

R – Prefiro não falar sobre isso.

P – Acha que é injusto que está acontecendo? Acha que é censura?

R – Censura, clausura, usura. Uma violência sem fim.

P – Deve haver limite para o humor?

R – Sim! Deve sim. Foi o que fizemos no auge do blog ao declararmos que era tudo brincadeira. Que não éramos débeis mentais incentivando o ódio, a destruição e esse tipo de babaquice.

P – O que levou a escrever aquele fatídico comunicado no blog, explicando que tudo não passava de uma brincadeira?

R – As pessoas são burras e muitas pessoas burras juntas só pode dar em confusão. Como estávamos falando pra muita gente junta, ficamos preocupados de essas pessoas burras fazerem muita burrada. Estavam xingando, ameaçando, expondo alguns assuntos pessoais. Era responsabilidade nossa tomar uma atitude. Ninguém gostou, mas eu achei foda da nossa parte. Hahahaha.

P – Valeu a pena sacanear tanta gente? Mesmo se acabarem sendo indiciados?

R – Valeu sim. Pretendemos voltar. Tenho feito muito isso no Twitter, ensaiando nossa volta. Mas aí eu me envolvo muito, fico irritado, nervoso. Nosso advogado  é muito bom. Não perderemos. [DK]

A gente gosta de entender que o Enrabelem é todo mundo. Até porque qualquer um pode ser o Enrabelem.

“A gente gosta de entender que o Enrabelem é todo mundo. Até porque qualquer um pode ser o Enrabelem”

Batendo de volta   

Artistas comentam sobre Enrabelem

“Acho que esses caras devem ser uns músicos frustrados ou coisa do gênero, o que tem muito na cidade. Mas apoio a iniciativa e, na real, me diverti muito lendo. Temos que ter uns caras falando coisa séria e uns falando mil bobagens. Uma leitura inútil que é massa para passar o tempo e ponto.Acho que devem ser dois nerds inúteis, mas sou fã desses goiabas”, Leo Chermont, guitarrista do Strobo.

“O Enrabelem é uma forma divertida de divulgação das bandas e da ‘cena’. Por mais que eles metam o pau, sempre tem um link pras musicas ou vídeos. E me diverti muito lendo a resenha deles sobre o Norman Bates. Hehehehehe. Gosto desse humor sarcástico sacana. Pena que eles gelaram, estavam num ritmo bom”, Manuel Malvar, baixista do Norman Bates.

“O Enrabelem é um blog de humor e é feito pra ser um blog de humor. Não é pra ser levado tão a sério assim. O lance é se divertir com as piadas e levar na brincadeira. Outra coisa que é legal é que mesmo falando mal, o blog acabou por divulgar de certa forma varias bandas. É um veiculo como qualquer outro que a gente tem que aproveitar o que tem de bom”, João Lemos, guitarrista e vocalista do Molho Negro.

Morto-vivo

Se você quiser se engajar por conta própria na atividade de arqueologia digital, pode acessar o blog do Enrabelem no seguinte endereço: http://enrabelem.blogspot.com.br. Mas os caras continuam vivos e chutando no Twitter: https://twitter.com/Enrabelem.

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