Ramones Disfarçado

fabio mozine capa - arquivo pessoal

Fábio Mozine, o poderoso chefão do hardcore nacional, revela sem pudores o seu amor pela música brega

Leonardo Fernandes

Fábio Mozine chorou. Difícil imaginar o integrante de grupos de hardcore como Mukeka di Rato, Os Pedrero e Merda verter uma lágrima, mas ele conta que não se conteve ao conhecer um de seus maiores ídolos: Adelino Nascimento. A conversa por telefone ocorrida em 2008 foi curta, mas cheia de significado. O bregueiro piauiense morreu poucos meses depois.

“Eu me emocionei, caí no berreiro, não conseguia me controlar. Ele ficou até preocupado, ficava repetindo que eu tivesse calma. Eu queria fazer uma festa com ele como atração principal. Foi logo se empolgando: ‘Eu posso ir no meu automóvel agora’. O cara tava em algum interior do Nordeste querendo pegar a estrada pra me encontrar em Vila Velha [ES]! Dava pra sentir na voz que ele tava ‘bebaço’. Levava uma vida bem punk”, afirma o músico capixaba de 37 anos.

Adelino, que se a autointitulava o “cantor apaixonado do povão”, não resistiu às complicações pulmonares decorrentes de uma asma crônica. Boêmio, era conhecido pelas bebedeiras e o vício em cocaína.

No ano seguinte, Mozine prestava sua homenagem com a cover “Adelino Nascimento”, como foi rebatizada “Meus Olhos Estão Chorando”. Parte do quinto disco d’Os Pedrero, “Sou Feio Mas Tenho Banda!”, a música originalmente composta como um pedido de desculpa por um pé na bunda se transforma aqui em um lamento de morte. “Vim pra dizer que ainda te amo/ Só que eu não posso te fazer feliz/ Os meus olhos altas horas estão chorando/ Te dar adeus é coisa que eu nunca quis”, diz o refrão.

Se o bigodinho não era o suficiente para deduzir, saiba que no peito tatuado de Fábio Mozine bate o coração de um cafona. Ano passado, essa faceta do músico ficou ainda mais evidente com o lançamento do último álbum do Merda, “Índio Cocalero”, com versões hardcore de Frankito Lopes e Alípio Martins. Já em “Känela Verdë Jäpanese”, documentário de Juliano Enrico sobre a turnê do Mukeka di Rato no Japão, que saiu no mesmo ano, a trilha é recheada de originais de Adelino.

Agora, como um cara que dedicou a vida ao punk, sendo inclusive o dono de um dos selos mais prolíficos do estilo, a Läjä Records – criada há 15 anos e com 130 discos, CDs, DVDs e K7s no catálogo  – , vem se interessando cada vez mais por baladas românticas e canções de dor de cotovelo?

“Meu gosto musical vem se resumindo a duas coisas: cachaça e chifre”, define em entrevista por telefone de Vila Velha. Na conversa que segue, ele fala como o brega se tornou uma obsessão na sua vida – da discoteca ao palco.

Dumont Kamikaze – O que chegou primeiro na sua vida, o brega ou o rock?

Fábio Mozine– O brega chegou primeiro na minha formação musical, pode ter certeza. Minha mãe é a culpada. Quando eu era moleque, meu pai era o mais cabeça da família, escutava Geraldo Vandré, Chico Buarque… Já a minha velha ouvia rádio AM. Então fazia o dever de casa ao som de Roberto Carlos, todo aquele pessoal da Jovem Guarda, Amado Batista. Foi aí que descobri o meu lado cafona: na cozinha de casa. Até hoje eu não sei como não tô cantando baladas românticas em um puteiro qualquer…

DK – E por que isso não aconteceu, pelo amor de Deus?

FM – [Em meio a risos] Bicho, veio adolescência, eu virei ‘benguer’. Passou mais uns anos, conheci o hardcore. Mas nunca vi ninguém mais foda que esses caras do brega. Muito mais firmeza que muito cara de moicano. Eu digo isso sem vergonha, já que nunca rejeitei nenhuma fase minha: se neguinho vier argumentar comigo, eu provo que o brega é a mesma estrutura do Ramones. Os mesmos três acordes, na mesma sequência.

DK – Mas e aí? Como o brega ressurgiu nessa história?

FM – O momento de redescoberta do brega, de eu pirar nas letras de verdade, já foi bem depois. Quando comecei a trabalhar com música, colecionar disco. Foi o Adelino Nascimento que me fez gostar de brega de novo. Foi aí que eu descobri meu lado cafona.

"O Adelino foi meu primeiro amor. Foi com ele que eu descobri meu lado cafona"

“O Adelino foi meu primeiro amor. Foi com ele que eu descobri meu lado cafona”

DK – Adelino o parece ser mesmo o seu grande “muso”. Ele é o seu cantor favorito?

FM – Com certeza é o cara de que eu mais gosto. A música dele é um negócio popular de verdade. Faz pouco tempo, consegui botar as mãos no seu primeiro disco. Por mais que seja um disco antigo, tosco, é um trabalho impecável. Foi o Aldo Sena que produziu, tipo o ‘dream team’ do brega paraense. Frankito Lopes é muito engraçado, Osvaldo Bezerra é outro que gosto muito. Mas o Adelino foi meu primeiro amor.

DK – Tanto que você gravou uma cover dele com Os Pedrero. De onde surgiu a ideia?

FM – Gravamos ‘Adelino Nascimento’ como uma forma de divulgação do cara. Às vezes me sinto como se tivesse uma missão. Quero espalhar para as novas gerações as maravilhas desse gênio. Essa juventude está perdida, sabe?

DK – O Jimmy London (Matanza) divide os vocais na música. Como surgiu a parceria? Ele também é fã do Adelino?

FM – Na verdade foi ideia do produtor do álbum, o Rafael Ramos. Como Jimmy faz parte do casting da gravadora dele, a Deckdiscs, sugeriu a parceria. Não sei te dizer até que ponto ele gostou ou não da música original. Mas foi de boa, participou mesmo da gravação, deu palpite.

DK – As releituras de brega para o hardcore se repetiram no disco do Merda, “Índio Cocalero” (2012), com “Frankitão [“Quero dormir em teus braços”, outra música rebatizada], do Frankito Lopes, e “Piranha”, de Alípio Martins. Isso está se tornando um tema no seu trabalho?

FM – Eu não planejo nada pra nenhuma das minhas bandas. Às vezes a gente tá bebendo e vem: ‘Bicho! É essa a música e tem que ser gravada por tal banda’. As coisas surgem muito em boteco, de cachaça ‘mermo’.  O Merda tem umas músicas de duplo sentido, não quer dizer que são engraçadinhas, mas umas coisas mais metafóricas. Como o “Índio Cocalero” fala muito de selva, Amazônia, umas gangues inventadas da região Norte. Então, veio na hora o Frankito Lopes, que era ‘O Índio Apaixonado’. Inclusive, eu também cheguei a ligar pro Frankito.  De novo queria que fizesse um show pra mim e uns amigos. Na época estava viciado em um DVD que ele tinha gravado na Bahia. O cara também estava muito bêbado ao telefone. Eu falava que amava ele, que ele era muito foda… Essas merdas, sabe? Logo depois desse papo, adivinha só? Ele morreu. Por isso tô proibido de falar com qualquer cantor de brega.

DK – Você tem autorização pra tocar essas músicas?

FM – No caso do DVD do Mukeka di Rato no Japão, pedimos autorização da Unacam, a editora que detém os direitos do espólio do Adelino Nascimento. Eu não registro as músicas como minhas, dou o crédito direitinho. A maior dificuldade é achar o detentor dos direitos. Estou há um tempão louco pra gravar uma música do Carlos Santos, mas não sei com quem negocio. Alias, se puder me ajudar a entrar em contato com o cara, agradeço [risos]. Eu só quero divulgar, só quero que os outros conheçam. Como aconteceu comigo um dia.

Tesouros de Mozine: "[O brega] é outra visão de mundo: outras palavras, outros sotaques. O nome d’Os Pedrero tem tudo a ver com esse universo. É essa coisa do povão, do simples, do cara que não tá nem ai."

Tesouros de Mozine: pequena mostra dos cerca de mil discos do músico. “[O brega] é outra visão de mundo: outras palavras, outros sotaques. O nome d’Os Pedrero tem tudo a ver com esse universo. É essa coisa do povão, do simples, do cara que não tá nem ai.”

DK – Mas afinal o que te chama atenção nesse tipo de música?

FM – É outra visão de mundo: outras palavras, outros sotaques. Música falando do Remo, do Paysandu [times de futebol paraense]. É uma realidade tão distante, que às vezes eu me sinto parte dela graças à música. Sem contar esse ar de cafajeste. Como o Raimundo Soldado cantando que as mulheres querem agarrá-lo. Inclusive, o nome d’Os Pedrero tem tudo a ver com esse universo. É essa coisa do povão, do simples, do cara que não tá nem ai.

DK- O pessoal que toca contigo teve que ser ‘convertido’ ao estilo?

FM – De certa maneira, sim. Mas naturalmente. Sem forçar a barra, sacou? Eles não são tão fãs quanto eu, mas sempre compram a ideia na hora. Não é muito diferente do que a gente toca. É aquele negócio que te falei do Ramones disfarçado.

DK – E nunca rolou dos fãs torcerem o nariz?

FM – Nunca rolou nada disso não. Estou nessa porque gosto, não é só pra fazer média. Mesmo tocando um som pesado, não há como mudar o seguinte: passei minha infância ao lado de um bando de tio bêbado escutando essas merdas no rádio. Não há Discharge que vá mudar essa parada.

DK – Como você conhece esse material? Vem tudo pela internet?

FM – Tem uma confusão muito grande entre brega e vídeo engraçadinho de internet. Mandam muito link dizendo que é uma coisa e não passa de um zé mané metido a comediante. Eu sou um comprador compulsivo de vinil. Toda hora estou caçando coisa nova. Quando fui no Japão descolei umas coisas bem cafonas. Na Argentina arranjei um monte de coisa da Jovem Guarda em castelhano. Brega é meio que uma linguagem universal.  Mas só foi quando visitei Belém (PA) pela primeira vez com o Mukeka di Rato, em 2009, é que dei um upgrade bacana na coleção. Dos mil discos que eu tenho, devo ter entre 100 e 150 só de brega.

DK – Se você veio no Pará deve ter pelo menos ouvido falar do tecnobrega…

FM – Eu já conhecia o tecnobrega. Quiseram me levar em uma aparelhagem, mas não rolou. Conheci o Calhambeque da Saudade [festa dedicada a música romântica dos anos 1980. Leva esse nome porque a cabine do DJ é montada dentro de um carro]. O cara me ganhou na coleção de vinis. Agora tem algumas coisas que não descem, como a Gaby Amarantos. Tinha todos os elementos pra eu gostar da música dela. Dá pra ver que ela é gente boa, que veio do underground. Não pegaram uma alemã pra cantar o bagulho da periferia. Mas o jeito que vendem a imagem dela criou uma barreira comigo.

DK – Mesmo correndo o risco de matar mais um bregueiro, tem alguém dessa galera que você queira conhecer? Quem sabe até fazer um dueto?

FM – Eu gostaria muito de conhecer o Oswaldo Bezerra. Morro de vontade de ir no show desse cara. Tem muita gente que eu gostaria de conhecer na verdade, mas de bate-pronto seria o Oswaldo. Quando eu me aventurei a falar com o Adelino, eu tinha ideia de fazer uma banda com ele tocando versões um pouquinho mais rock and roll do seu repertório. Depois da sua morte, pensei em fazer um disco-tributo só com bandas de hardcore e punk. Ainda planejo algo nessa linha, mas falta tempo. Seriam bandas tipo Mukeka di Rato, Matanza… Esse projeto de banda cover do Adelino já vem de longe, inspirado em outra velha ideia que ainda não foi pra frente, o Tenébrio Peixoto…

DK – E quem seria o Tenébrio Peixoto?

FM – Com o passar do tempo comecei a compor alguns bregas. Ai criei um alter ego pra quando assumir minha carreira de croonerde corno, que é o Tenébrio Peixoto. O nome eu peguei emprestado de uma conversa que tive com um amigo que fala meio errado. Um dia foi falar que a coisa era tenebrosa, acabou saindo ‘tenébrio’. Falei pro Rafael Ramos que ia formar um projeto chamado Tenébiro Carlos, em homenagem ao rei. Ele respondeu: “Tenébrio Carlos o caralho. Põe o nome de Tenébrio Peixoto”. Uma vez até arrisquei a ensaiar, separar repertório. Mas não gostei muito do resultado, da minha voz. Então tem que amadurecer um pouco mais. Mas já está tudo mais ou menos formatado.

"Rapaz, eu considero o Roberto Carlos um cara brega pra caralho. Um roceiro que se acha o tal"

“Rapaz, eu considero o Roberto Carlos um cara brega pra caralho. Um roceiro que se acha o tal”

DK – Por falar em Roberto Carlos, considera ele um cara brega?

FM – Rapaz, eu considero o Roberto Carlos um cara brega pra caralho. O que faz o cara tão brega é o fato dele não se achar brega, entende? Porra, um capixaba fuleiro com aquele cabelinho de cuia e uma perna faltando. Um roceiro que se acha o tal. Veja bem, apesar de tudo, acho ele um músico foda. Eu cheguei a tocar numa banda cover do Roberto Carlos, na Amigos do Rei, em 2008. Eram só os clássicos dos anos 60, nas versões originais. Sem distorção, tudo certinho, bem careta. Adorava aquilo. Só que ele seria mais foda se assumisse seu lado brega.

DK – Acha que o brega é a alma do Brasil? A gente é cafona por natureza?

FM – Acho que o ser humano é ridículo, bicho. Independente se é brasileiro ou não. Nos outros países deve ter o brega deles.  Na Polônia deve ter algum lenhador que escuta um conjunto de cornetas pra embalar algum pé na bunda e morrer de dor de cotovelo por isso. E a galera mais jovem dá risada e faz pouco. Na verdade, pra mim não tem essa coisa de brega, erudita ou popular. Todo tipo de música é brasileira. Hardcore é música folclórica pros meus ouvidos. [DK]

Do mosh pit ao Cabaré

Para você que está com preguiça de procurar na Wikipedia, segue um resumo das biografias dos bregueiros homenageados por Fábio Mozine.

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Adelino Nascimento (1956-2008) – O cantor apaixonado do povão teve uma carreira prolífica, lançando mais de 30 discos entre os anos 1980 e o começo dos 2000. Sua música retrata o universo esfumaçado dos cabarés em que costumava se apresentar, como a ode que fez a uma prostituta em “Secretária da Beira do Cais”. Durante um show em Sergipe, passou mal e foi internado as pressas. Morreu no dia seguinte, aos 52 anos.

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Frankito Lopes (1938 – 2008) – Frankito Lopes levou até as ultimas consequências a personagem d’O Índio Apaixonado. Além do cocar de penas coloridas, sua marca registrada era a pintura de guerra tatuada no rosto. Ganhou a alcunha por se dizer descendente de indígenas da Ilha do Bananal, município do estado do Mato Grosso. Acabou dando origem a uma tribo de mulheres e filhos, com inúmeros casos extra conjugais. Morreu de cirrose aos 70 anos.

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Alípio Martins (1944-1997) – Comparado com o resto da lista, Alípio era um carola. Não bebia e nem fumava, mas gostava de fazer gênero posando com um cachimbo, hábito que copiou do ídolo Roberto Carlos. Um dos percussores da lambada na década de 1980, tinha um senso de humor que se destacava em meio ao mar de baladas românticas do brega, com composições como “Festa dos Cornos”, “Tira a Calcinha” e “Eu Quero Gozar (A Vida Com Você)”. Tanto que chegou a apresentar seu maior clássico, “Piranha”, em esquete no programa “Os Trapalhões”, em 1977. Cacildis!

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Jesus manêro

Na sede da Soust, em Brasília, Belém é uma recordação constante. Fotos da multidão que o acompanhou na capital paraense estampa as paredes da casa.

No ano em que a sua igreja completa 30 anos de fundação, Inri relembra os bons e velhos tempos de sua “carreira” como Messias

Leonardo Fernandes

Um  Karmann Ghia Tc vermelho cruza a estrada de terra. O close revela Inri Cristo no volante. Ele acena para câmera e sorri. Corta para uma caminhada em câmera lenta do líder religioso acompanhado de seus discípulos, em uma cena a la “Cães de Aluguel” de Quentin Tarantino. A batida eletrônica da trilha sonora vai crescendo até culminar no refrão “Inri é o nosso Pai”.

No clipe em que parodia “Gangnam Style”, hit do rapper sul-coreano Psy, Inri arrisca até uma voltinha de lambreta, na qual se esforça para manter o equilíbrio sobre o veículo. Quem canta e produz o vídeo são as Inrizetes, como foi apelidado o grupo de devotas que se dedicam a louvar o seu profeta através de versões místicas de artistas da música pop como Britney Spears e Adele.

Enquanto que o cristianismo faz questão de nos relembrar do sofrimento de Jesus adotando a cruz como símbolo máximo da sua fé, o brasileiro que se diz a reencarnação do Messias prefere o humor para propagar a sua mensagem.

Mas houve uma época em que o mesmo homem de cabelo grande, túnica branca e fala enrolada era sinônimo de subversão. A pedra fundamental de sua igreja, a Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade (Soust), foi um violento bate-boca que terminou com a prisão do religioso. O que entrou para a história da seita sob os pomposos nomes de “Ato Libertário” e “Divina Revolução” foi descrito pelo extinto jornal A Província do Pará como ato de profanação, quebra-quebra e depredação.

De acordo com a matéria assinada pelos jornalistas Abnor Gondim, Pedro Coelho e Beth Mendes, no dia 28 de fevereiro de 1982, Inri, acompanhado de uma multidão de seguidores, invadiu a Igreja da Sé, em Belém, no Pará, sob o pretexto de “libertar a casa de meu Pai e desmascarar os vendilhões, como fiz há dois mil anos em Jerusalém”.

Na ocasião estava sendo celebrada uma missa para as crianças. O líder religioso começa escorraçando o diácono e a freira que estavam ministrando o ritual aos gritos de “mentiroso” e “prostituta”. Com a ajuda dos populares, Inri é carregado até o altar-mor e quebra um crucifixo. Depois de desviar de uma cadeira arremessada e se defender de uma tentativa de agressão do próprio diácono, o Cristo catarinense só foi contido por uma guarnição de 50 homens da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros.

As fotos do incidente impressionam: mesmo detido pela PM, o autointitulado “Emissário do Pai” prega para uma Praça da Sé tão lotada de gente que nem se vê o outro lado da rua. A repercussão do caso foi nacional, até a revista Veja publicou uma coluna sobre a multidão que ajudou um fanático a invadir a igreja. Em suma, uma pessoa bem diferente do que estamos acostumados a ver servindo de piada em programas humorísticos como o “Pânico na TV”.

No ano em que a Soust completa 30 anos de criação, Inri é convidado a relembrar os bons e velhos tempos de sua “carreira” como messias, papel que ele já assume há 40 anos. Uma tarefa difícil, já que tudo o que havia de ser dito sobre esse episódio foi explorado à exaustão pelo próprio.

A sua versão dos fatos pode ser encontrada no livro “Despertador – 2ª Parte”, uma espécie de Novo Testamento repaginado, só que contendo a história de Inri. E se os céus não lhe concederam o dom da onipresença, ele parece almejar este objetivo através da internet. Além do site inricristo.org.br, o profeta mantém páginas no Facebook, Twitter e Youtube. Esses são os principais canais de divulgação de sua fé já que a Soust não possui igreja, templo ou sinagoga, somente a sede em Brasília, que também faz as vezes de morada para ele e seus discípulos.

Mas o profeta parece ter alguns assuntos mal resolvidos em Belém. Culpa a imprensa local pelo ostracismo que experimenta. “Você me perguntou porque eu nunca mais voltei a Belém. Eu voltei, muitas vezes. Só que não deixaram que você soubesse disso. Cada vez que eu tentava reunir com jornalistas, ninguém atendia. AÍ fiquei sabendo que eles tinham ordens de não falar comigo. Você que está na mídia deve saber que isso acontece. Hoje em dia eu acho normal isso, não vá pensando que eu tenho alguma mágoa”, revela.

Por isso mesmo, a curiosidade de um repórter paraense foi o passaporte para a chácara em que Inri vive no bairro do Gama, em Brasília. Lá, Inri e seus discípulos fazem parte do folclore local. Como conta um taxista que disse ter visto um bando de periquitos pousarem ao comando do líder religioso e só ousaram alçar voo ao final de um longo sermão.

Paraíso com piscina

Os portões da Soust foram abertos às 16 horas em ponto. A assessora de imprensa Adeí Schmidt já esperava à porta, também trajando uma túnica, só que azul claro, que lhe cobria até os tornozelos. “A única exigência de Inri é que desligue o celular. Ele não tolera ser interrompido. E antes da entrevista ele vai proferir uma pequena benção”, diz a discípula.

Próximo à piscina, existe um pequeno auditório com um palco coberto por uma cortina vermelha. Duas seguidoras descerram o pano, marcando a entrada triunfal de seu líder. Erguendo-se do trono, ele levanta as mãos para o alto em reverência e inicia um monólogo que de tão dramático chega a ser teatral: nele reafirma sua condição de messias, alerta sobre o iminente fim do mundo e divide até um pouco do fardo que é ser o Filho do Pai.

“Não escolhi ser Cristo. Não posso os obrigar a saber quem sou. Mas isso não altera a minha realidade. Pensais que é fácil obedecer ao Senhor? Os ignorantes zombando de mim? Ainda que os malignos tenham condenado Galileu, a Terra continuou transitando em torno do sol. O sol brilha e, mesmo que todos duvidassem, ele não deixaria de ser sol. Assim também como a maioria dos terráqueos não acredita que sou Cristo e continuo sendo o mesmo quando me crucificaram”, diz. Enquanto profere seu discurso, um grupo de onze devotos se ajoelha em reverência. São homens e mulheres, jovens e idosos, todos devidamente uniformizados.

Desde criança Inri afirma sofrer com sua condição. Natural de Indaial, pequena aldeia no interior do estado de Santa Catarina, Inri foi batizado como Álvaro Thais pelos pais adotivos. Largou a escola ainda criança para complementar a renda familiar. A mãe era passadeira e arrumadeira e ele ajudava carregando água. Aos quatro anos passou a ser atormentado por visões horríveis: presságios do fim do mundo que se repetiam noite após noite.

“Eu via seres rastejando sobre seus próprios membros, ouvia gemidos de dor, explosões, a terra tremia. Eu sofria, mas não podia falar com ninguém. Eu recebia a uma ordem imperativa que eu não podia revelar nada”, conta.

Na adolescência, se virou como pode: foi mascate, verdureiro, entregador de marmitas, padeiro e cobrador de ônibus. Aos 21 anos a voz na sua cabeça ordenou que começasse sua vida pública. No começo atuou como vidente, depois aos 31 anos, durante uma peregrinação em Santiago do Chile, teve uma iluminação enquanto jejuava: era o Filho de Deus.

Inri no escritório, blog Dumont Kamikaze - Crédito Leonardo Fernandes (1280x720)

Na sede da Soust, em Brasília, Belém é uma recordação constante. Fotos de sua passagem pela capital paraense em 1982, ano de fundação da sua igreja, estampam as paredes da casa.

Inri Cristo Superstar

Inri tinha 33 anos quando chegou a Belém pela primeira vez, em 1981. Fazia alguns meses que percorria o Brasil, em busca de um local perfeito para praticar a “revolução divina”. Ao chegar em Macapá, escutou mais uma vez a ordem do Pai: “‘Belém está preparada para a revolução’, disse o Senhor. ‘Ela tem todo o mistério’, disse o Senhor. ‘Até o nome dela conecta-se contigo. Lá tu tens que renascer misticamente’, Ele me disse”, garante o profeta.

Uma cidade católica por essência – o culto em torno de Nossa Senhora de Nazaré, iniciado pelo caboclo Plácido remete ao ano de 1700 -, Belém se encantou com o jovem impetuoso que afirmava ser Cristo. Por três dias seguidos falou na também finada TV Guajará, operando até um milagre em frente às câmeras: um deficiente físico teria voltado a andar após receber as bênçãos de Inri.

Na sexta-feira, dia 26 de fevereiro, lançou uma convocação no programa ao vivo. Às 8 horas partiria da Praça Dom Pedro em direção à Igreja da Sé no intuito de reivindicar “o que estão roubando do meu povo”. “Foi um dos gestos mais sublimes da minha vida, quando eu libertei o meu povo, simbolicamente. Do jugo, da idolatria e da mentira. Eu vivi só para isso. Eu queria mostrar para o povo que eu não era aquele boneco”, afirma.

“O delegado proferiu uma série de elogios à minha mãe”

Depois de contido pela polícia, foi encaminhado para o presídio São José, que segundo relato de um funcionário, na época colhido pela Província, foi recebido aos gritos de “Cristo, Cristo!” pelos detentos. “Queriam me obrigar a assinar uma procuração, e eu argumentei: não tenho necessidade de advogado. Só cumpro a vontade do meu Pai. Se Ele não quiser que eu fique aqui (no presídio) ele abre aquela porta e eu saio andando por ela. E se ele não abre a porta, ele abre essa parede”, conta.

Sua rotina na cadeia era dividia entre as visitas diárias da imprensa, benção aos fieis e consultas psiquiátricas. “Eu passei 15 dias sendo examinado por psiquiatras. Era o melhor momento do dia, quando eu batia papo com intelectuais. Eram pessoas que entendiam o que eu falava. Me tratavam muito bem. Também durante os 15 dias que eu fiquei na prisão, todos os dias ia gente da imprensa me entrevistar. E todo dia saia matéria de capa”, garante.

Segundo ele, nunca foi hostilizado na prisão, exceto no momento da sua chegada à Central de Polícia, quando foi obrigado pelo delegado a se despir da túnica. “Ele proferiu uma série de elogios à minha mãe”, ironiza.

Inri exemplifica o clima ameno de seus tempos de cárcere com a seguinte história: certa vez faltou água na cela e foi dado a um balde para fazer seu asseio. Sem chance de privacidade na cela lotada, pediu ajuda de quatro presos para improvisar uma espécie de biombo. “Ou seja, bandidos aos olhos da sociedade, mas me ajudaram a tomar meu banho”, ressalta.

Depois de todo o escarcéu causado pelo profeta, ele foi solto sem sequer precisar de advogado. Um trecho do livro “Despertador” afirma que o juiz Jaime dos Santos Rocha, depois de ter defendido a internação do religioso em um manicômio por ter invadido o templo, posteriormente o liberou sem ônus sob a seguinte alegação: “Eu não te crucifiquei como Pilatos; te mantive no cativeiro para te proteger dos teus inimigos”.

Dando a cara a tapa

Hoje, aos 64 anos, Inri olha para o passado com reverência, mas parece não desejar novos conflitos. “Eu tento me adaptar à realidade. Eu cheguei à seguinte conclusão: não adianta dar murro em ponta de faca. A única coisa que eu estou aqui na Terra pra fazer é a libertação, daqueles que querem ser livres. Eu não tenho o interesse de uma multidão de fanáticos atrás de mim, não. A minha missão é libertar a consciência. Eu queria dizer a todas as religiões que se sentem ameaçadas, que acham que eu vou roubar o cliente deles: saibam que não me interessa”, avisa.

Até as troças que fazem em seu nome ele releva e, tal qual Jesus, oferece a outra face. “Quem me olha no ‘Pânico’ não sabe como eu sou de verdade. Mas pra mim, quem me compreende, compreende. Quem não me compreende, não compreende. O Danilo Gentili, quando veio aqui, sentou aos meus pés e ficou igual um garotinho. No ar faz brincadeira e tudo, mas sem as câmeras o coração dele bate com o meu”, diz. “Sabe por quê? Os que me amam são os que amam a liberdade. E os humoristas, em geral, amam a liberdade”.

Ao final de três horas de entrevistas, o místico se despede com uma benção na qual pede para que o “Altíssimo Todo Poderoso” ilumine esta matéria. “Que te ilumine e só digas a verdade. Pode contar tudo, mas não minta. Hasta la vista, meu filho”, diz. Quem dera todo o evangelho fosse tão descolado assim. [DK]

Dose dupla

A ponto de se tornar um discípulo do Emissário do Pai? Leia também a entrevista ping-pong com Inri publicada na edição de natal do jornal Diário do Pará:

entrevista inri diario do para - leonardo fernandes

*Inri pode até se dizer infalível, mas eu não passo de um reles ser humano e errei. Gostaria de aproveitar o espaço para acrescentar as seguintes correções na matéria “Cristo, segundo ele mesmo” . A sede da Soust, em Brasília, tem 20 mil metros, não 20 mil hectares como foi publicado. Além disso, cometi um equivoco na grafia do nome da cidade natal do profeta que é Indaial.

Quem divulgar esta entrevista será agraciado com bênçãos do céu.

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Enrabelem: “Valeu a pena sacanear tanta gente”

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Em entrevista exclusiva, os trolls por trás do blog que todos amam odiar abrem seu coraçãozinho negro

Leonardo Fernandes

Quase todo mundo conhece o tipo: aquele fã de metal que odeia tudo que não venha acompanhado de um riff de guitarra distorcido e um vocal gutural monstruoso. Por isso quando os posts cheios de provocação do blog Enrabelem (escrito no pior internetês, sem maiúscula ou acento) começaram a serem notados no início do ano, muitos acreditaram na brincadeira.

Como uma versão repaginada para a internet de Beavis e Butthead, os administradores do site, que atendem pelo pseudônimo Ophir da Pauta e Lu Stroza, castigaram a cena rock da cidade em suas ‘analizes’ musicais.

Os indies do Molho Negro foram rebatizados de Gala Escorre, em alusão a seu logo um pouco sugestivo, em que o nome do grupo respinga em um fundo negro. Já Roosevelt Bala, do grupo pioneiro do heavy metal paraense Stress, é comparado ao bregueiro Wanderley Andrade, devido a longa cabeleira rebelde que os dois cantores ostentam. Isso só para ficar nas descrições mais simpáticas, que não envolvem nem insinuações sobre a sexualidade dos músicos ou palavrões em caixa alta.

Pisando em tantos calos, não demorou para o nível descer mais ainda. Fãs e integrantes das bandas citadas começaram a inundar a caixa de comentários do blog com reclamações, ameaças de processo e eventuais “vou te matar”. Assustados com a repercussão negativa, a dupla de ‘bullies’ do Enrabelem foi obrigada a revelar a farsa em menos de duas semanas no ar.

Na nota de esclarecimento publicada no dia 30 de janeiro, ao invés do sarcasmo e os erros de ortografia habituais, um pedido de trégua em português claro. No texto, os dois amigos que iniciaram uma brincadeira que saiu do controle se justificam. “A ideia é tirar um sarro com a postura über sexual do headbanger que não conseguiu evoluir. É um blog de humor que tenta divulgar as bandas do som peso e tirar um sarro dessa postura machista e obsoleta”, afirmam em um trecho.

A partir daí, especular sobre a verdadeira identidade do Enrabelem se tornou o passatempo preferido nas festas e shows da cidade. Bandas dedicavam musicas ao blog, até pediam via Twitter para serem sacaneadas. Contudo, em maio os posts começaram a ficar cada vez mais raros, cessando por completo em junho. Com o silêncio veio a especulação, sugerindo problemas com a justiça e censura.

Os administradores da página tentam evitar comentar sobre o espinhoso assunto. Eles, inclusive, ensaiaram uma volta em setembro com uma série de resenhas sobre o CCAA Fest, sem tocar nos motivos do desaparecimento ou da retomada do blog. Mas alguns meses de silêncio em tempos de redes sociais equivalem a séculos – e a página acabou perdendo relevância.

Engana-se, no entanto, quem pensa que Enrabelem não passa de piada velha. Ele foi o responsável por meter o pé na porta escancarando-a para uma horda de ‘trolls’ paraense que assolam as redes sociais. Hoje, são perfis como “M0nt4g3ns b3l3m” que mantêm a mesma batida formula: esculacho, erros gramaticais e Photoshop mal feito.

Prestes a completar um ano no próximo dia 30, o Enrabelem dá sua primeira entrevista. Realizada em setembro, via e-mail, o bate-papo é o mais próximo que alguém ainda vagamente curioso sobre a identidade dos criadores do site vai chegar. Mais do que brincar de detetive, a conversa é uma oportunidade de conhecer um pouco melhor esse personagem, uma nota de rodapé da cultura pop de Belém alguns podem argumentar, mas que nos rendeu boas risadas em 2012 às custas da desgraça alheia. Sem encarar personagens e sem se preocupar em soar engraçado, Lu Stroza fala de forma franca sobre a criação do blog, gosto musical, humor e censura. Com vocês, o blog que todos amam odiar.

P – Não custa tentar, então lá vai: QUAL A IDENTIDADE SECRETA DO ENRABELÉM?

R – A gente gosta de entender que o Enrabelem é todo mundo. Até porque qualquer um pode ser o Enrabelem. Mas na vida real somos dois caras normais, que gostam muito de música e que admiram artistas da bossa nova ao metal extremo, além de cultura em geral. No blog nos chamamos de Ophir Daputa e Lu Stroza, mas somos apenas o canal para o que todo mundo acha, pensa e gostaria de falar. No Twitter, sou eu, Lu Stroza, normalmente que comando. E o foco é mais diversificado: política, futebol, música, cotidiano, o que vier. Pura bobagem. Às vezes até saindo do personagem. Mas é divertido.

P – O anonimato é necessário? Em nenhum momento vocês pensaram em revelar quem eram?

R – Em uma cidade pequena como Belém, com pessoas com cabeça pequena como as que têm aqui, imagina se a gente fala quem é. Muitas vezes sacaneamos nossos próprios amigos, parceiros, sócios. Imagina se soubessem quem somos. Todo mundo ia se ofender, não ia entender como brincadeira. Primeiro que ia perder 50% da graça, depois ia matar o charme e o sucesso com a mulherada.

Enrabelem: esculacho, erros gramaticais e Photoshop mal feito

P – Quando foi criado o site? O que motivou a brincadeira?

R – O Ophir criou no final do ano passado e me chamou. A gente estava querendo fazer isso faz tempo. Primeiro foi um teste, depois explodiu em visualizações.  As pessoas queriam mais. Mandavam mensagens e e-mails indicando matéria, sugerindo posts. Era muito divertido ver os amigos comentando, a cidade toda falando sobre. Em vários shows alguém mandava um abraço pra galera do Enrabelem. A gente comemorava por dentro. Se entreolhando, sem ninguém notar. Era uma aventura.

P – Você é banger de verdade? No que se inspirou para fazer o personagem?

R – Não somos bangers! O personagem foi se formando com o tempo, mas a ideia inicial era tirar um sarro gigante com vários tipos de pessoas que circulam pelas redes sociais da vida. Gente que está sempre xingando, reclamando, e, especificamente, o grupo mais “troo” do metal, sabe? Aqueles bem ignorantes de espírito.

P – E a questão dos erros de gramática, as gírias daqui. Como foi decidido o estilo?

R – É a ideia de representar os ogros do metal, um sujeito que não toma banho, destrói tudo, odeia a tudo que não for do metal mais puro.  Essa bobagem toda.  E as gírias daqui são mais pra despistar o jeito de a gente falar (hehe). Um sotaque da galera da Cidade Nova (bairro no município de Ananindeua, região Metropolitana de Belém), que foi incrível a gente conseguir imprimir isso ao discurso do blog. Mas isso de escrever errado, malucão, foi meio sem querer. Tenho um problema nas mãos e depois de um tempo fica difícil acertar as teclas direitinho, então deixei de corrigir e ficou assim, mais divertido.

P – Como o blog começou a cair na boca do povo? Como foi a reação inicial dos leitores que ainda não tinham se tocado da sátira? E as bandas, como elas reagiram?

R – Até hoje muita gente não se tocou. E tem uns muitos meses que paramos de escrever. A primeira reação foi de revolta, eu acho. Mas não demorou pra surgirem muitas pessoas dizendo: ‘É isso mesmo! Essa banda é uma droga’. Muitas bandas mandavam e-mail e pediam pra gente falar delas, ‘analisar’ os clipes. Não importa se a gente ia avacalhar ou não. E, é claro, a gente ia. Mas percebi um certo medo que alguns artistas passaram a ter, bloqueando a gente no Twitter. Mesmo a gente dizendo que era fã do trabalho dos caras. Aconteceu algumas vezes.

P – Quantos acessos tinham no auge do site?

R – Ah, em dia de post era tipo 1.200 visitas em um dia, ou um pouco mais. Até bandas de fora procuraram, mas sabe como é, não tem feedback nenhum se não for uma banda conhecida daqui. Além disso, o que eu vou falar de um grupo emo de São Paulo? Nada.

P – Quando o sucesso começou a pesar? Vocês irritaram muita gente pra chegar onde chegaram. Receberam ameaças?

R – Rapaz, a gente quase tira o blog do ar. Porque somos dois caras normais. Todo mundo ama o Enrabelem, mas tenho certeza que todos iriam nos odiar se descobrissem. E sabe que não é nem um pouco complicado descobrir rastro digital. Qualquer um que trabalhe numa prestadora de serviço de dados que abasteça aquele computador tem como identificar de onde foi postado. Mas nossa preocupação sempre foi não ofender ninguém.

P – Mas às vezes não acha cruel o que faz, desmerecendo o trabalho dos caras?

R – Pois é, ninguém está desmerecendo. Uma coisa é dizer ‘o trabalho do fulano é irrelevante’, outra coisa é dizer ‘Véio’, muito bom… pra quem gosta de merda’. Dá pra levar a sério? Não é cruel. Tou fazendo mais por ele do que ele mesmo já fez, em relação a se divulgar. Se a banda for esperta, ganha muita visibilidade com isso.

P – Para apimentar um pouco as coisas, qual a banda ou músico mais escroto do Pará?

R – Álibi de Orfeu. É muito ruim. Bem pior do que Almirzinho Gabriel.

P – E o que acha sobre a cena metal paraense?

R – Muito boa. Zé Lucas (vocalista da banda de deathcore A Red Nightmare), Jayme Katarro (vocalista e fundador do grupo de crossover Delinquentes) e companhia. Sempre fazem um trabalho ótimo, dentro do que dá pra fazer.

P – Costuma frequentar festas ou shows na cidade?

R – Já frequentei bem mais. Ia sempre, mais de uma vez por semana, se desse. Hoje tá tudo muito fraco. Se não é num pub decadente, é em outro bem pior. A esperança são os pequenos festivais que o Sandro-k (produtor da Abunai, que organiza shows de hardcore em Belém) e agregados organizam, de resto… até o Se Rasgum (produtora responsável pelo festival Se Rasgum) tá um negócio blasé que dá enjoo.

“Não somos bangers! A ideia inicial era tirar um sarro gigante com vários tipos de pessoas que circulam pelas redes sociais da vida. Aqueles bem ignorantes de espírito”

P – O que acha do público daqui?

R – Ridículos, um bando de ridículos. Que querem tudo, com direito a conforto e ingresso de graça. Hehe. Mas que também são uns ‘maria-vai-com-as-outras’, sem lastro cultural nenhum. E lisos! Desempregados, drogados, mulambos, pedintes.

P – E tecnobrega, curte?

R – Reconheço como manifestação cultural popular. Acho foda a Gang do Eletro, um dos melhores shows que já vi. Mas fico puto com essa usurpação da identidade da periferia pela GDU. Sabe a Galera do Umarizal? (em referencia ao bairro nobre de Belém).

P – Inclusive, o ritmo da periferia do Pará é o que vem alavancando a música paraense no Brasil. Como explica isso? Acha que iniciativas como o Terruá Pará ajudam nessa divulgação?

R – Essa descoberta do tecnobrega lá fora é uma soma de diversos fatores. Principalmente, dos músicos paraenses. O mérito é do trabalho desses caras.  Mas o Terruá eu acho uma bosta. Lindo espetáculo, mas resultado ridículo pra população e pra classe artística. Pulveriza esses mais de R$ 100 milhões gastos pra você ver. Nem adianta falar sobre isso.

P – Hoje você se concentra mais no Twitter. Porque pararam de fazer as resenhas?

R – Porque o Twitter anda comigo no celular, é rápido. Serve para pensamentos mais ágeis. E as pessoas no Twitter são mais perspicazes do que no blog. Dá mais vontade de interagir. Temos poucos seguidores, só 450 (dados de setembro). É bastante divertido. Paramos com as resenhas por falta de tempo mesmo.

P – Ouvi dizer que o blog está sendo processado…

R – Prefiro não falar sobre isso.

P – Acha que é injusto que está acontecendo? Acha que é censura?

R – Censura, clausura, usura. Uma violência sem fim.

P – Deve haver limite para o humor?

R – Sim! Deve sim. Foi o que fizemos no auge do blog ao declararmos que era tudo brincadeira. Que não éramos débeis mentais incentivando o ódio, a destruição e esse tipo de babaquice.

P – O que levou a escrever aquele fatídico comunicado no blog, explicando que tudo não passava de uma brincadeira?

R – As pessoas são burras e muitas pessoas burras juntas só pode dar em confusão. Como estávamos falando pra muita gente junta, ficamos preocupados de essas pessoas burras fazerem muita burrada. Estavam xingando, ameaçando, expondo alguns assuntos pessoais. Era responsabilidade nossa tomar uma atitude. Ninguém gostou, mas eu achei foda da nossa parte. Hahahaha.

P – Valeu a pena sacanear tanta gente? Mesmo se acabarem sendo indiciados?

R – Valeu sim. Pretendemos voltar. Tenho feito muito isso no Twitter, ensaiando nossa volta. Mas aí eu me envolvo muito, fico irritado, nervoso. Nosso advogado  é muito bom. Não perderemos. [DK]

A gente gosta de entender que o Enrabelem é todo mundo. Até porque qualquer um pode ser o Enrabelem.

“A gente gosta de entender que o Enrabelem é todo mundo. Até porque qualquer um pode ser o Enrabelem”

Batendo de volta   

Artistas comentam sobre Enrabelem

“Acho que esses caras devem ser uns músicos frustrados ou coisa do gênero, o que tem muito na cidade. Mas apoio a iniciativa e, na real, me diverti muito lendo. Temos que ter uns caras falando coisa séria e uns falando mil bobagens. Uma leitura inútil que é massa para passar o tempo e ponto.Acho que devem ser dois nerds inúteis, mas sou fã desses goiabas”, Leo Chermont, guitarrista do Strobo.

“O Enrabelem é uma forma divertida de divulgação das bandas e da ‘cena’. Por mais que eles metam o pau, sempre tem um link pras musicas ou vídeos. E me diverti muito lendo a resenha deles sobre o Norman Bates. Hehehehehe. Gosto desse humor sarcástico sacana. Pena que eles gelaram, estavam num ritmo bom”, Manuel Malvar, baixista do Norman Bates.

“O Enrabelem é um blog de humor e é feito pra ser um blog de humor. Não é pra ser levado tão a sério assim. O lance é se divertir com as piadas e levar na brincadeira. Outra coisa que é legal é que mesmo falando mal, o blog acabou por divulgar de certa forma varias bandas. É um veiculo como qualquer outro que a gente tem que aproveitar o que tem de bom”, João Lemos, guitarrista e vocalista do Molho Negro.

Morto-vivo

Se você quiser se engajar por conta própria na atividade de arqueologia digital, pode acessar o blog do Enrabelem no seguinte endereço: http://enrabelem.blogspot.com.br. Mas os caras continuam vivos e chutando no Twitter: https://twitter.com/Enrabelem.

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